terça-feira, 27 de setembro de 2011

: Sexta-feira, Agosto 06, 2004 ::
*acende cigarro, joga os rascunhos dos livros pra um canto, empurra o Proust pro outro, tira da frente as fotos delíciosas da Grécia da última National Geografic, e por fim bate a cinza* Olá sras. e srs. Como podem ver, escrever não é algo tão simples como a maior parte da população acredita. Um escritor não é um vagabundo que passa o dia à toa. Não mesmo. *aumenta o som: Blur - There´s no other way* E tudo isso, sem contar problemas básicos: procurar emprego, mandar currículos, caçar o maldito mestrado, ver se encontra um estágio para cumprir as últimas horas, minha Cereja e os rolos todos. Heh... e lendo Proust. Mais uma vez.
Quem acreditou que irei falar de madelleines, esqueçam. Até aceito um chá, mas elas sempre grudam no céu de minha boca, como pipoca, mas dela eu gosto. Pois bem, o que o seu cínico/andarilho/etc. vem comentar?
Com a missão de voltar a escrever, e diga-se voltar a escrever E rever o q foi escrito, acabei batendo em um pequeno ponto interessante... e que já dei uma cutucada antes... o que leva alguém a escrever? *Daftpunk - Harder Better Faster Stronger*
Muitos escrevem para desabafar. Nas palavras do grande Rilke: "Pergunte a si mesmo se é capaz de ficar sem escrever um dia sequer. Se a resposta for sim, não aventure-se." não me recordo se essas são as palavras exatas, mas seu sentido é mais forte. Rilke escrevia por que não conseguia manter aquelas palavras dentro de si mesmo. Por que não conseguia suprimir a angústia e outras emoções de igual força dentro de si. Escrevia, como muitos, para desabafar suas emoções, sendo as mais comuns: angústia, medo e revolta. Muitas e maravilhosas obras da literatura mundial são decorrentes desses escritores. Rilke da angústia, Kafka do medo, Marx da revolta. Muitas vezes meus textos, contos e livros, refletem minhas emoções. Desde minha sombra, negra e podrem recheada de pecados, até minha pureza, quase infantil, onde o mundo todo poderia ser resolvido em um pouco mais de humanidade da parte dos humanos... recheando tudo, são minhas emoções que me impulsionam na vida. Mas seria essa a motivação principal de meus escritos? Não. Talvez terciária... *Cazuza - Exagerado*
Outros escrevem para refletirem sobre suas vidas, seu mundo. Auto-conhecimento. De si e de sua própria época. Eles escrevem, pois como Proust já disse: "A minha obra é a reflexão não só de minha vida, mas principalmente de meu tempo. Minhas memórias, emoções, ações só o foram, porque foram no meu tempo." Sim. As palavras de Proust ressoam em minha mente. Quando olho o mundo ao meu redor, olho com diversos olhares simultâneos. Desde a fera assassina q reside dentro de meu peito, que observa possíveis inimigos, rotas de ataque, locais que garantiriam segurança contra muitos oponentes; do andarilho urbano que vê maravilhado as milhares de opções à frente de seus pés; o fotógrafo que caça momentos únicos; e o escritor. Talvez o escritor seja um dos mais fortes. Pois ao observar meus arredores, vejo a indiferença para com os outros, o desprezo, o medo estampado nos olhos... enquanto que luto como indivíduo para não me submeter a tais emoções, o escritor as observa, registra, e absorve para escancarar com palavras a sociedade que o formou. Mas seria a reflexão do ato de escrever que me leva a tal? Não. Talvez terciária, secundária até. *Flock of Seaguls - I ran*
Agora MUITOS escrevem por dinheiro e fama (alguns até ganham cadeiras na Academia de Letras... só magia para tal, na certa.) Ambicionam moldar o mundo, enriquecer no processo. Essa corrupção que a fama trás corrompe muitos (certo baiano muito Amado que o diga) e transformam suas obras em tiragens em série, perdendo o estilo que certo português Nobel cisma em manter, apesar de parecer tiragem. Porém, há algo de bom nessa podridão: eles querem mudar o modo como as pessoas pensam. Muitos casos isso é desprezível. Porém, certo Saramago tenta trazer mais sensibilidade ao mundo, assim como certo Calvino tenta trazer um pouco de magia. Nesse caso tal ambição, quando não corrompida pelo poder, é louvável. Mas com certeza não são os holofotes que me chamam. E sim, tentar mudar a forma com que as pessoas pensam, trazendo um pouco de magia, questionamento e sensibilidade. Talvez... talvez seja isso que me impulsiona. Secundário, e talvez principal. *Desireless - Voyage Voyage*
Mas talvez, no fundo de meu ser, eu saiba o porque. Saiba o que me leva a ir por esse caminho sofrido e duro. Sim... se resume em uma palavra: SUPERAÇÃO. Os milhares de obstáculos, a enorme possibilidade de não conseguir atingir as pessoas, o possível fracasso. E não só isso, escrever algo pelo qual eu mesmo aceitasse pagar para ler. Algo que prenda a atenção, que te force a lutar contra o sono. Que te faça se espremer no ônibus, apenas para se deleitar com aquelas palavras doces, amargas ou sombrias. Como certo criador de sonhos diz " Eu escrevo para mim mesmo. Dane-se se gostam ou não. EU gosto." E digo amém a essas palavras, acreditando que existe uma possibilidade mínima de trabalhar com ele. Essa luta Vertiginosa, em que nos esforçamos a espremer nosso mundo interior e dele arrancar uma beleza, uma dor, um prazer somente nosso, e dividí-lo com outros, em menor dose, é isso certamente que me move. Esse desejo de que as pessoas tenham o mesmo prazer que tenho quando folheio meus manuscritos e impressões. Certamente é isso. É essa a razão pela qual vocês estão aqui, a ler. E eu a escrever. *Pixies - Where is my mind*
Portanto, que se algum pretenso escritor passar seus olhos por essas linhas, onde esse mero cínico e pretenso escritor também discorreu acerca do que me impulsiona, pergunte a si mesmo o porque de seu desejo. E se você não quiser ceder aos fracassos, aceitá-los, e como um certo Provocador diz AME seu fracasso! É dele que você arranca seu melhor logo depois! Fracasse! Fracasse e se fortaleça com isso! E que os deuses protejam sua obra. Porque por mim, eles que cuidem da sua. Eu cuido da minha. *apaga cigarro, sorri ao ouvir Freddie Mercury - Linvin' on my own, dá um leve toque nos óculos e sorri*

See ya in the desert skies

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