terça-feira, 11 de outubro de 2011

And I miss you...

*acende cigarro*
Olá. 

Curiosa a vida, não? 

Você vai, viaja pelo mundo...
Cruza desertos, corre por países estranhos onde não entende uma palavra que seja, nada em mares que muitos só viram no cinema, toma uma cerveja na Sicília, fuma um cigarro em Londres, anda perdido pelo mundo... 
Triste, vazio, ferido e cheio de cicatrizes mal-curadas por dentro, expelindo o pus espiritual da desilusão, desespero velado e cinismo ácido. 

Você anda pelos lugares...
Luta com pessoas, sangra por outras, chora por algumas, amaldiçoa outras, conhece pessoas que outras só em sonhos o fazem. Te olham como um deus-bárbaro no centro velho de Sampa, te olham como o ídolo de uma geração entre velhos colegas de escola, é maldito e desejado pelas várias mulheres de seu passado, é aclamado e odiado pelos homens que encontrou pela vida...
Triste, vazio, ferido e cheio de cicatrizes mal-curadas por dentro, expelindo feromônios, seduzindo mulheres, fazendo sexo casual, buscando preencher o vazio dentro de si com sexo vazio e mecânico, pois acredita que não há por que alguém te amar. 

Você olha para o céu... 
Muitas vezes desafiando os deuses que estão lá em cima, pros lados e abaixo. Muitas vezes amaldiçoando-os por todas as misérias de sua vida. Não as misérias que você mesmo criou, mas somente aquelas que você jamais pediu, aquelas que eles te deram. Você olha para o céu e, uma vez aqui e outra ali, agradece algo bom que aconteceu com quem você gosta. E mais raramente por algo que ocorreu de bom consigo mesmo. 
Triste, vazio, ferido e cheio de cicatrizes mal-curadas por dentro, olho para o céu e digo uma vez mais: não. Não sirvo a ninguém. Agradeço o que fazem comigo. Toda a dor, vazio, feridas e tudo mais. Toda a felicidade, amizades reais, amores (mesmo que tenham sido destruídos e levado muito de dentro de mim...) e tudo o mais. Agradeço a tudo isso. E acredito que mais do que ouvir meus lamentos e pedidos, vocês, deuses, tem suas guerras para lutar. Seja com gigantes de gelo, filhos/anjos revoltados, pais/deuses vingativos, ou o que quer que seja. Quando puderem me agraciar, amaldiçoar ou o que quer que seja, grato pela atenção. Quando eu morrer, conversamos sobre essas coisas todas. E espero que realmente sejam tão poderosos como dizem nas lendas, pois garanto que minha selvageria me põe de igual pra igual...

*Suspiro*

Você vive... 
Cheio de cicatrizes, todo ferrado... amigos te esquecem, (não todos.)
Desiludido e desesperançado... amores perdidos, que te arrancaram pedaços da alma, (sim, todos.)
Triste e amargurado... a vida não foi muito amigável com você, (e nas poucas vezes que foi, você mesmo se encarregou de cagar tudo. Ou por não se achar digno do que recebeu, ou por simplesmente ser um idiota.)

Te resta pouco... tão pouco. 
Você desiste. Abraça o vazio. Sexo sem sentimentos. Trabalho que só te suga. Pessoas que não te acrescentam nada. Bebe em excesso. Fuma mais do que era acostumado. 
Esquece de quando era gentil... se torna cínico, amargo e ranzinza. 
Esquece de quando era doce... se torna bruto, grosso, perde a paciência.
Esquece de como era amar alguém... se torna frio, mais solitário e mais triste.
O pouco que te resta, você tenta oferecer essa pequena fagulha de bondade que te sobrou. Mas muitas vezes acaba oferecendo apenas um punhado de cinzas para quem ama, para os amigos e familiares que lhe restaram. E se sente frustrado com isso. 

O que se pode fazer? Lutar contra si mesmo, sendo que você não odeia o que se tornou?
O que se pode fazer? Olha no espelho e vê apenas um monstro, sem se lembrar do jovem radiante que era?
Você segue em frente. 
É o que te restou, não, raposa velha?
Você se torna a raposa que engana. O corvo que rapina os cadáveres. (Sim, alusão aos meus espíritos-guia.)
Você não quer ver a raposa brincalhona e travessa. O corvo sábio e radiante no meio das trevas. 
Mas mesmo assim...
Mesmo assim sabe que eles estão lá. 
Um momento apenas, é tudo que precisa para a pelagem voltar ao vermelho radiante, a plumagem negra que brilha nas trevas...

Mas o momento não vem. 
E não vem.
E não vem...

Até que ele chega. 

E então você se sente perdido. 
Toda sua crueldade, malícia, cinismo, amargor... não valem de nada.
Toda sua inteligência, sabedoria, velocidade de raciocínio, língua afiada e percepção dos menores detalhes... não servem pra nada. 
Todas suas habilidades de guerrear, lutar, matar... são inúteis. 
Todos seus talentos, sejam de cama, mesa ou banho... não servem. 
Toda sua experiência de vida... tem que ser revista. 
Seus olhos mortos e vazios... voltam à vida. E vorazes por mais. 
Sua mente amortecida pelo tédio sufocante... acorda. E volta a trabalhar analisando tudo ao seu redor. 
Seu coração, esse buraco negro pulsante que você tem dentro do peito... permanece. 
Pois esse buraco negro é capaz de conter mais amor do que um mero coração de carne e osso. 
Esse buraco negro é capaz de sacrifícios que ninguém cometeria. 
Esse buraco negro se entrega de tal forma, que outros corações jamais o farão. 
Esse buraco negro, o qual você encarava com dor e tristeza, deixa de sê-lo. 
Você o oferece, com cuidado. Pois ele não é um coração. É um buraco negro. 
Você sabe que ele é perigoso. Sabe que ele pode ferir a pessoa a quem é oferecido. 
Mas não sou uma raposa velha à toa, não?
Não sou um corvo noturno à toam não?
Não sou um Fae qualquer...

Você olha para os deuses de forma estranha. Obviamente, suspeita deles. Eles são loucos?
Certo, certo... seu sofrimento, dores e todo o resto foram horríveis. Quem não concorda?
Mas te deram uma base correta para que você seja capaz de proteger, cuidar, entender e ajudar essa pessoa que caiu do nada no seu colo. 

Olho para essa pessoa:
Seu rosto sorridente. Mesmo que a tristeza esteja lá, escondida. 
Seus olhos brilhantes e cheios de vida. Mesmo que esteja cansada desse mundo. 
Seu trejeitos, seu modo de ser, andar, viver...
Não. 
Não!
Chega disso tudo. 
Você rasga sua plumagem velha e puída. Rasga sua pelagem desbotada e empoeirada. 
Devora sua mente. Devora suas cicatrizes. Devora suas feridas. 
Você rasga a realidade em que se prendeu. 
Ergue das profundezas de sua alma a pequena fagulha de mágica. 
E em um segundo, começa uma jornada dentro de si mesmo. 
Uma guerra dentro de si. 
O monstro, já foi um jovem radiante.
O "anjo caído", já foi um ser divino.
A Raposa sorri. 
O Corvo a acompanha.
E um sorriso puro consegue fugir de seus próprios lábios, para seu próprio espanto.

Dessa vez, você está preparado. 
Você é o jovem radiante E o monstro. 
Você é o ser divino E o anjo caído. 
Você não se prende mais às correntes morais humanas. 
Você volta ao munda da meia-luz. O eterno amanhecer, o eterno anoitecer. 
Você pode ser um sonho para ela. 
Você pode ser um pesadelo para aqueles que ameaçam à ela. 
Você olha no espelho. E vê o jovem com o monstro ao lado. Ambos puros em suas naturezas. 
Você não luta consigo mesmo. Você aceita sua dualidade. 
Você sorri ao lembrar que é uma aberração com dois espíritos-guia. 
Você sorri por saber que não é um mero mortal. 
Você sorri. Um sorriso que é cheio de pureza e malícia. 
Você sorri por ela. 

Mesmo que seja um passo arriscado. 
Mesmo que você ache que talvez não resista à mais dor e sofrimento. 
Mesmo que seja uma aposta mais alta do que você é capaz de pagar...

Você sorri por ela. 
*apaga o cigarro*

See ya in the desert skies

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